Mepolizumabe (Nucala): plano de saúde deve cobrir o medicamento?

Mepolizumabe (Nucala): plano de saúde deve cobrir o medicamento?

Data de publicação: 12/03/2026

Conteúdo atualizado em 08 de outubro de 2026.

Mepolizumabe (Nucala) para esofagite eosinofílica pelo plano de saúde: é possível?
Imagem de nensuria no Freepik

O mepolizumabe (Nucala) tem cobertura obrigatória pelo plano de saúde na asma eosinofílica grave, quando cumpridos os critérios da diretriz de utilização do rol da ANS. Nas demais indicações e no uso fora da bula, a cobertura é discutida pela via dos cinco critérios fixados pelo STF. Uma aplicação mensal custa entre R$ 10,7 mil e R$ 14,8 mil pelo preço máximo ao consumidor.

O plano de saúde é obrigado a cobrir o mepolizumabe (Nucala) para o tratamento da asma eosinofílica grave, que é a indicação do medicamento incluída na diretriz de utilização do rol da ANS. Nesse caso a cobertura não depende de discussão sobre o rol: depende do cumprimento de critérios clínicos objetivos, descritos adiante.

Nas outras indicações registradas em bula, e no uso fora da bula, o medicamento fica fora da diretriz. A cobertura passa a ser analisada pelos cinco critérios cumulativos que o Supremo Tribunal Federal fixou no julgamento da ADI 7.265, em 18 de setembro de 2025. São dois caminhos jurídicos diferentes, com requisitos diferentes.

O mepolizumabe é um anticorpo monoclonal anti-interleucina-5, aplicado por injeção subcutânea uma vez a cada 4 semanas. Ele não é quimioterapia. Uma aplicação de 100 mg tem preço máximo ao consumidor entre R$ 10.731,39 e R$ 14.754,67, conforme a apresentação, o estado e a alíquota de ICMS, segundo a lista de preços da CMED atualizada em 9 de setembro de 2026.

Pacientes que recebem prescrição do medicamento mepolizumabe (Nucala) frequentemente enfrentam dificuldades para obter a autorização do tratamento pelo plano de saúde.

Em muitos casos, mesmo com indicação médica fundamentada, a operadora se recusa a custear a medicação.

Entre as justificativas mais comuns estão a alegação de que a indicação não consta na bula do medicamento para aquele caso específico ou de que o tratamento não está previsto no Rol de Procedimentos e Eventos da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). O segundo argumento não se aplica à asma eosinofílica grave, em que o medicamento é nominado na própria diretriz de utilização do rol.

No entanto, a legislação brasileira admite a cobertura de tratamentos prescritos com base em evidências científicas. A Lei 14.454/2022 estabelece que procedimentos e medicamentos podem ser autorizados mesmo quando não estão expressamente previstos no rol da ANS, desde que exista respaldo técnico-científico para a indicação terapêutica. Essa lei segue em vigor, mas o critério que ela criou deixou de ser aplicado de forma autônoma depois do julgamento da ADI 7.265 pelo STF. O regime atual é o dos cinco critérios cumulativos, detalhado adiante nesta página.

Ao longo deste artigo, você vai entender quando o plano de saúde pode ser obrigado a custear o mepolizumabe (Nucala), quais são os argumentos mais usados pelas operadoras para negar o tratamento e quais medidas podem ser adotadas diante da negativa.

Confira:

  • Para que serve o mepolizumabe
  • Qual o preço do Nucala (mepolizumabe)
  • Por que o plano pode ser obrigado a cobrir este tratamento
  • O que fazer quando há negativa de cobertura
  • Como conseguir o medicamento pelo SUS
  • Perguntas frequentes
Fale com um advogado especialista em planos de saúde Fale com um advogado especialista em planos de saúde

O que é o mepolizumabe (Nucala)?

O mepolizumabe é o princípio ativo do medicamento Nucala, um fármaco biológico classificado como anticorpo monoclonal.

Esse tipo de medicamento é desenvolvido para reconhecer e atuar sobre alvos específicos do organismo, interferindo em mecanismos relacionados a determinadas doenças.

No caso do mepolizumabe, sua ação é direcionada à interleucina-5 (IL-5), uma proteína do sistema imunológico que participa da produção, ativação e sobrevivência das células chamadas eosinófilos. Quando essas células estão presentes em quantidade elevada, podem provocar processos inflamatórios associados a diversas doenças.

Ao bloquear a ação da IL-5, o medicamento ajuda a reduzir a quantidade de eosinófilos no organismo e, consequentemente, a controlar inflamações que têm relação com esse tipo de célula.

Por esse mecanismo, o mepolizumabe integra a classe dos imunobiológicos anti-IL-5. No rol da ANS ele aparece sob a denominação de terapia imunobiológica, que é o nome do procedimento a que a cobertura está vinculada.

O mepolizumabe não é quimioterapia. A quimioterapia age sobre células em multiplicação; o mepolizumabe neutraliza uma proteína específica do sistema imunológico. A distinção importa na prática, porque muda o regime de autorização que a operadora aplica ao pedido.


Para que serve o mepolizumabe (Nucala)?

De acordo com a bula aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o Nucala (mepolizumabe) é indicado para o tratamento de algumas doenças inflamatórias associadas ao aumento de eosinófilos. O medicamento tem registro ativo na Anvisa sob o número 1.0107.0335.

São cinco as indicações registradas em bula no Brasil:

  • asma eosinofílica grave, em adultos e pacientes pediátricos acima de 6 anos de idade;
  • granulomatose eosinofílica com poliangeíte (GEPA);
  • síndrome hipereosinofílica, , a partir dos 12 anos de idade, com duração de 6 meses ou mais e sem causa não hematológica secundária identificável;
  • rinossinusite crônica com pólipos nasais (RSCcPN) grave, em adultos, como terapia complementar aos corticosteroides intranasais, quando corticosteroide sistêmico ou cirurgia não controlaram a doença;
  • doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) não controlada, em adultos, caracterizada por eosinófilos sanguíneos aumentados, em combinação com corticosteroide inalatório, agonista beta-2 adrenérgico de ação prolongada (LABA) e antimuscarínico de longa duração (LAMA).

A indicação de DPOC é a mais recente. Ela foi aprovada pela Anvisa na Resolução RE 1.583/2026, publicada no Diário Oficial da União em 22 de abril de 2026. O medicamento não é indicado para o tratamento de exacerbações agudas da DPOC. A indicação de rinossinusite crônica com pólipos nasais foi aprovada em julho de 2022.

Essas condições têm em comum o envolvimento dos eosinófilos no processo inflamatório. Por isso, ao atuar na regulação dessas células, o mepolizumabe pode contribuir para o controle da doença e para a redução de sintomas em pacientes que apresentam formas mais graves ou de difícil tratamento.

A distinção entre indicação registrada e uso fora da bula é o que decide a maior parte das negativas. Ela é tratada mais adiante, na seção de cobertura.


Como o mepolizumabe é aplicado

O mepolizumabe é aplicado por injeção subcutânea, uma vez a cada 4 semanas. A dose varia conforme a indicação e a idade, segundo a bula do medicamento:

Indicação

Dose por aplicação

Intervalo

Asma eosinofílica grave, de 6 a 11 anos

40 mg

a cada 4 semanas

Asma eosinofílica grave, a partir de 12 anos e adultos

100 mg

a cada 4 semanas

Rinossinusite crônica com pólipos nasais, adultos

100 mg

a cada 4 semanas

DPOC não controlada, adultos

100 mg

a cada 4 semanas

Granulomatose eosinofílica com poliangeíte, adultos

300 mg

a cada 4 semanas

Síndrome hipereosinofílica, a partir de 12 anos

300 mg

a cada 4 semanas

A apresentação em caneta aplicadora e a seringa preenchida podem ser autoadministradas pelo paciente ou por um cuidador, desde que o profissional de saúde considere adequado e haja treinamento na técnica de injeção. A bula registra que o tratamento é de longa duração e que a necessidade de continuidade deve ser reavaliada pelo menos uma vez por ano.

A dose e o intervalo definem quantas unidades o tratamento consome por mês, e é isso que transforma o preço por caixa em custo de tratamento.

Guia sobre reajuste do plano de saúde Guia sobre reajuste do plano de saúde

Quanto custa o mepolizumabe (Nucala)?

Uma aplicação de 100 mg de Nucala tem preço máximo ao consumidor entre R$ 10.731,39 e R$ 14.754,67, conforme a apresentação, o estado e a alíquota de ICMS. Os valores são da lista de preços da CMED, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, atualizada em 9 de setembro de 2026.

O mepolizumabe é considerado um medicamento de alto custo. No mercado brasileiro, uma caixa de Nucala 100 mg pode variar aproximadamente entre R$ 7,2 mil e R$ 11,8 mil, dependendo da apresentação do produto, como frasco-ampola ou caneta aplicadora, além da farmácia e da região onde é adquirido.

Essa faixa corresponde ao preço praticado no varejo, que pode ficar abaixo do teto regulado. O preço máximo ao consumidor definido pela CMED é o limite legal de venda, e é o parâmetro usado em discussões judiciais sobre custeio.

Apresentação de 100 mg

Preço máximo ao consumidor

Pó liofilizado para solução injetável, em frasco-ampola

de R$ 10.731,39, com ICMS de 17%, a R$ 11.567,60, com ICMS de 23%

Solução injetável em caneta aplicadora

de R$ 13.855,01, em São Paulo, a R$ 14.754,67, no Maranhão

Fonte: lista de preços da CMED, publicação de 9 de setembro de 2026. A variação entre estados decorre da alíquota estadual de ICMS.

Devido ao valor elevado, o acesso ao tratamento pode se tornar financeiramente inviável para muitos pacientes quando não há cobertura pelo plano de saúde. Por isso, a discussão sobre a responsabilidade das operadoras em relação ao custeio do medicamento costuma surgir quando existe prescrição médica fundamentada.


Quanto custa o tratamento por mês e por ano

O custo mensal depende da dose da indicação. Como a aplicação é a cada 4 semanas, o tratamento consome cerca de 13 doses por ano.

Regime

Unidades de 100 mg por mês

Custo mensal pelo preço máximo

Custo anual estimado

Asma eosinofílica grave a partir de 12 anos, RSCcPN e DPOC: 100 mg

1

de R$ 10.731,39 a R$ 14.754,67

de aproximadamente R$ 139,5 mil a R$ 191,8 mil

GEPA e síndrome hipereosinofílica: 300 mg

3

de R$ 32.194,17 a R$ 44.264,01

de aproximadamente R$ 418,5 mil a R$ 575,4 mil

Cálculo sobre os preços máximos ao consumidor da CMED de 9 de setembro de 2026 e a posologia da bula. Em nota técnica sobre um pedido judicial de mepolizumabe, o Núcleo de Apoio Técnico ao Judiciário do Tribunal de Justiça do Distrito Federal estimou o custo anual do regime de 100 mg mensais em R$ 128.274,12, pela lista da CMED então vigente.


Por que o custo do medicamento não é fundamento para a recusa

O valor do medicamento não é, por si, motivo válido para o plano de saúde negar a cobertura. A Lei 9.656/98 e o rol da ANS definem a obrigação de cobertura pela previsão do procedimento e pelo cumprimento da diretriz de utilização, não pelo preço. Uma vez configurada a obrigação, o custo é risco do contrato.

No SUS a lógica é diferente: ali o custo entra na análise, mas do lado do paciente. A incapacidade financeira de arcar com o medicamento é um dos três requisitos que o Superior Tribunal de Justiça fixou para o fornecimento de medicamento não incorporado, tratado adiante nesta página.


O plano de saúde é obrigado a cobrir o mepolizumabe (Nucala)?

Depende da indicação. Na asma eosinofílica grave a cobertura é obrigatória, porque o medicamento é nominado na diretriz de utilização do rol da ANS. Nas demais indicações de bula e no uso fora da bula, o medicamento fica fora da diretriz, e a cobertura é analisada pelos cinco critérios cumulativos fixados pelo STF na ADI 7.265.

O registro sanitário na Anvisa é um dos requisitos, e não o fundamento único. Ele vale para as indicações registradas em bula. Quando a prescrição é para uma condição que não está na bula, o registro continua sendo exigido, mas a discussão passa a depender dos demais critérios, em especial o da comprovação de eficácia por medicina baseada em evidências.

Assim, quando há recomendação médica devidamente fundamentada, é possível analisar juridicamente a negativa da operadora e verificar se existem medidas cabíveis para buscar o acesso ao tratamento.

As duas rotas de cobertura, os critérios de cada uma e os fundamentos mais usados nas negativas estão detalhados a seguir.


Mepolizumabe está no rol da ANS?

Sim, para a asma eosinofílica grave. O mepolizumabe é nominado na diretriz de utilização vinculada ao procedimento de terapia imunobiológica do rol da ANS, o que torna a cobertura obrigatória quando os critérios clínicos são cumpridos. A diretriz nomeia, para o tratamento complementar da asma eosinofílica grave, os medicamentos benralizumabe, mepolizumabe, dupilumabe ou tezepelumabe.

A diretriz está no Anexo II da RN 465/2021 da ANS, e sua redação atual vem da RN 634/2025, em vigor desde 2 de junho de 2025. O mepolizumabe integra a lista da saúde suplementar para asma grave desde abril de 2021, conforme registro da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

A cobertura obrigatória exige o cumprimento de três critérios cumulativos:

  1. asma não controlada apesar do uso de corticosteroide inalatório associado a agonista beta-2 adrenérgico de longa duração;
  2. contagem de eosinófilos igual ou superior a 300 células por microlitro nos últimos 12 meses;
  3. uso contínuo de corticosteroide oral para controle da asma nos últimos 6 meses, ou 3 ou mais exacerbações que exigiram tratamento com corticosteroide oral no último ano.

Quando os três critérios estão documentados no relatório do médico assistente, a negativa da operadora contraria a própria norma que ela invoca. Nesse cenário o argumento de "ausência no rol" não se sustenta, porque o medicamento está no rol para aquela indicação.

As outras quatro indicações de bula não estão na diretriz. Granulomatose eosinofílica com poliangeíte, síndrome hipereosinofílica, rinossinusite crônica com pólipos nasais e DPOC com fenótipo eosinofílico seguem pela segunda rota, descrita a seguir.


Cobertura das indicações que estão fora do rol

Para as indicações que não constam da diretriz de utilização, a cobertura é analisada pelos cinco critérios cumulativos que o Supremo Tribunal Federal fixou no julgamento da ADI 7.265, em 18 de setembro de 2025. Cumulativos significa que todos precisam estar presentes ao mesmo tempo:

  1. prescrição do médico assistente;
  2. ausência de negativa expressa da ANS à incorporação da tecnologia;
  3. inexistência de alternativa terapêutica no rol para aquele caso;
  4. comprovação de eficácia por medicina baseada em evidências;
  5. registro do medicamento na Anvisa.

Esse regime substituiu o que vinha sendo aplicado com base na Lei 14.454/2022, em que bastava um de dois critérios alternativos: eficácia comprovada por evidências científicas ou recomendação de órgão de avaliação de tecnologias em saúde. A lei continua em vigor, mas passou a ser lida pelo STF com os cinco requisitos acima.

A data da negativa da operadora define qual regime se aplica ao caso:

  • negativas até 20 de setembro de 2022: regime anterior à Lei 14.454/2022;
  • negativas de 21 de setembro de 2022 a 17 de setembro de 2025: regime dos dois critérios alternativos da Lei 14.454/2022;
  • negativas a partir de 18 de setembro de 2025: regime dos cinco critérios cumulativos da ADI 7.265.

No Tribunal de Justiça de São Paulo, a Súmula 95 segue em vigor e registra que, havendo expressa indicação médica, não prevalece a negativa de cobertura do custeio ou fornecimento de medicamentos associados a tratamento. As Súmulas 100 e 102 do mesmo tribunal foram revogadas em 10 de setembro de 2025 e não servem mais de fundamento.

A discussão mais ampla sobre medicamentos fora do rol da ANS e sobre o caráter do rol da ANS tem desdobramentos que vão além deste medicamento.


Tratamento da esofagite eosinofílica com o mepolizumabe

A esofagite eosinofílica não é indicação registrada em bula do mepolizumabe no Brasil. A prescrição para essa doença é, tecnicamente, uso fora da bula, e a cobertura segue a segunda rota, a dos cinco critérios cumulativos. Na bula brasileira, a esofagite eosinofílica aparece apenas na seção de farmacocinética, como a condição dos pacientes de um estudo pediátrico usado para descrever o comportamento do medicamento no organismo, e não entre as indicações.

Por sua ação, é cada vez mais recorrente a recomendação do mepolizumabe para tratar a esofagite eosinofílica, com base em estudos científicos que mediram o efeito do medicamento sobre a inflamação do esôfago.

Um deles, inclusive, avaliou os resultados do medicamento em crianças com esofagite eosinofílica. De acordo com a pesquisa, o mepolizumabe reduziu a inflamação eosinofílica esofágica nesses pacientes.

Essa distinção tem consequência jurídica direta. A literatura clínica sobre terapia biológica na esofagite eosinofílica registra que os imunobiológicos anti-IL-5 reduziram a eosinofilia do esôfago sem melhora significativa dos sintomas. Como o quarto critério da ADI 7.265 exige comprovação de eficácia por medicina baseada em evidências, é nesse ponto que o pedido de cobertura do mepolizumabe para esofagite eosinofílica encontra a maior resistência técnica.

Para a mesma doença, o dupilumabe tem indicação registrada na Anvisa desde 3 de abril de 2023, para pacientes a partir de 12 anos de idade com peso corporal igual ou superior a 40 kg. Esse registro não está na diretriz de utilização do rol da ANS para esofagite eosinofílica, de modo que também ali a cobertura é discutida fora do rol. A existência de uma alternativa com indicação registrada é um dos elementos que a operadora costuma apresentar quando a prescrição é de mepolizumabe.

Nada disso torna o pedido inviável. Significa que ele depende de um relatório médico que explique por que, naquele caso concreto, o mepolizumabe é a escolha adequada, e que o fundamento útil é o dos cinco critérios, não o registro sanitário do medicamento para outras doenças.

A esofagite eosinofílica, por sua vez, é uma doença inflamatória crônica do esôfago. Ela é caracterizada pela presença de um número elevado de eosinófilos no tecido esofágico e afeta crianças e adultos.


Por que os planos de saúde costumam negar o mepolizumabe?

Em alguns casos, pacientes que recebem prescrição do medicamento Nucala podem enfrentar negativa de cobertura por parte do plano de saúde.

Entre as justificativas mais utilizadas pelas operadoras estão:

  • a alegação de que a indicação do medicamento não consta na bula para determinada doença, sendo classificada como uso off label;
  • a ausência do tratamento no Rol de Procedimentos e Eventos da Agência Nacional de Saúde Suplementar, argumento que não se aplica à asma eosinofílica grave;
  • o não preenchimento dos critérios da diretriz de utilização, quando o relatório médico não documenta a contagem de eosinófilos ou o histórico de exacerbações;
  • a classificação do tratamento como experimental.

Esses argumentos, no entanto, não encerram automaticamente a discussão sobre a cobertura, especialmente quando há indicação médica fundamentada e respaldo técnico-científico para o tratamento.

Em relação ao uso fora da bula, é importante observar que a classificação como tratamento experimental normalmente se refere a terapias sem evidência científica de eficácia ou segurança. Quando existem estudos, diretrizes médicas ou literatura científica que sustentam a prescrição, a indicação off label pode ser analisada sob outra perspectiva.

Quando a divergência é sobre a indicação clínica e não sobre a cobertura em si, a RN 424/2017 da ANS prevê o procedimento de junta médica, com um terceiro profissional escolhido em comum acordo para desempatar. O beneficiário pode indicar o desempatador entre os nomes apresentados pela operadora.

A Lei 14.454/2022 alterou a Lei 9.656/98 para admitir a análise de terapias prescritas pelo médico assistente mesmo quando não constam expressamente na listagem da ANS. O conteúdo desse critério é o que o STF delimitou na ADI 7.265, nos cinco requisitos descritos acima.

Assim, quando existe prescrição médica fundamentada e respaldo técnico-científico, a negativa de cobertura pode ser analisada juridicamente para verificar se está em conformidade com a legislação e com o entendimento aplicado em casos semelhantes.


Mepolizumabe Nucala plano de saúde ANS
Imagem de jcomp no Freepik

Como conseguir o mepolizumabe (Nucala) pelo SUS

O mepolizumabe é fornecido pelo SUS para o tratamento da asma eosinofílica grave refratária. Ele integra o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, o CEAF, que é o que o público costuma chamar de farmácia de alto custo. A dispensação segue o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da asma.

A incorporação foi feita em duas etapas:

  • adultos, pela Portaria SCTIE/MS nº 22, de 28 de maio de 2021, conforme o protocolo clínico, na mesma atualização em que o omalizumabe passou a ser ofertado para asma grave, registrada pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia;
  • pacientes de 6 a 17 anos, pela Portaria SECTICS/MS nº 22, de 18 de abril de 2024, após recomendação unânime do Comitê de Medicamentos da Conitec em 6 de março de 2024.

O caminho administrativo é o mesmo dos outros medicamentos do CEAF. O paciente precisa do Laudo para Solicitação de Medicamento, o LME, preenchido pelo médico com o diagnóstico e a justificativa clínica, além de documento de identificação, comprovante de residência, cartão do SUS, prescrição e os exames que comprovam o cumprimento dos critérios do protocolo. O processo é aberto na farmácia do componente especializado da secretaria estadual de saúde. O passo a passo detalhado de como conseguir o medicamento pelo SUS vale para qualquer fármaco do componente.

Para as demais indicações do mepolizumabe, o medicamento não está incorporado ao SUS. Nesses casos a via administrativa não resolve, e a discussão passa para o Judiciário. A situação dos medicamentos de alto custo pelo SUS segue a mesma lógica.


O que fazer quando o SUS não fornece para a indicação prescrita

Para medicamento não incorporado, o Superior Tribunal de Justiça fixou três requisitos cumulativos no Tema 106:

  1. comprovação, por laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por médico assistente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim como da ineficácia, para o tratamento da doença, dos fármacos fornecidos pelo SUS;
  2. incapacidade financeira de arcar com o custo do medicamento prescrito;
  3. existência de registro do medicamento na Anvisa, observados os usos autorizados pela agência.

O terceiro requisito é o que separa a via do SUS da via do plano de saúde no caso do mepolizumabe. A ressalva "observados os usos autorizados pela agência" torna o pedido de uso fora da bula mais difícil contra o poder público do que contra a operadora.


O que fazer diante da recusa do plano de saúde?

Quando o plano de saúde nega a cobertura do mepolizumabe (Nucala), alguns cuidados podem ser importantes para avaliar as medidas cabíveis.

O primeiro passo costuma ser solicitar ao médico assistente um relatório clínico detalhado. Esse documento deve descrever o histórico do paciente, os tratamentos já realizados, a evolução da doença e as razões técnicas que justificam a indicação do medicamento.

No caso da asma eosinofílica grave, o relatório precisa registrar expressamente a contagem de eosinófilos e o histórico de exacerbações ou de uso de corticosteroide oral, porque são esses os números que a diretriz de utilização exige.

Também é recomendável pedir à operadora que formalize, por escrito, os motivos da negativa de cobertura. Esse documento pode ser importante para compreender a justificativa apresentada pelo plano de saúde.

Com esses documentos reunidos, é possível avaliar as medidas judiciais cabíveis, entre elas o pedido de liminar, que no processo civil tem o nome de tutela de urgência e está previsto no art. 300 do Código de Processo Civil. Ela exige a demonstração de probabilidade do direito e de risco de dano ou de prejuízo ao resultado do processo, requisitos que, em pedidos de medicamento de uso continuado, costumam ser discutidos a partir do relatório médico e da gravidade do quadro.

Em situações desse tipo, a análise jurídica costuma considerar fatores como a prescrição médica, as evidências científicas disponíveis e o entendimento aplicado em decisões judiciais sobre casos semelhantes.


Quais documentos reunir antes de acionar a Justiça

São cinco os documentos que sustentam o pedido:

  1. relatório do médico assistente, com diagnóstico, tratamentos já tentados, justificativa da escolha do mepolizumabe e a dose prescrita;
  2. exames que comprovem os critérios clínicos, em especial o hemograma com a contagem de eosinófilos;
  3. negativa da operadora por escrito, ou o número de protocolo do pedido e a data;
  4. cópia do contrato do plano e comprovantes de pagamento em dia;
  5. orçamento ou a lista de preços da CMED, para demonstrar o valor do tratamento.

A RN 259/2011 da ANS fixa prazos máximos para a operadora responder a solicitações de cobertura. O descumprimento do prazo é, por si, um elemento a registrar, porque a demora na autorização de medicamento de uso continuado tem efeito clínico.

Fale com um advogado especialista em planos de saúde Fale com um advogado especialista em planos de saúde

Existe garantia de resultado em uma ação sobre medicamento?

Não é possível afirmar que uma ação judicial seja "causa ganha". O resultado de um processo depende de diversos fatores, como a prescrição médica, as evidências científicas disponíveis, as características do contrato do plano de saúde e as particularidades do caso concreto.

Cada caso precisa ser analisado individualmente. No caso do mepolizumabe, a diferença mais relevante entre dois pedidos aparentemente iguais costuma ser documental: se o relatório médico registra os critérios da diretriz de utilização e os exames que os comprovam, a discussão é sobre cumprimento de norma; se não registra, a discussão volta a ser sobre o rol.

Perguntas frequentes sobre o mepolizumabe (Nucala)

O mepolizumabe é quimioterapia?

Não. O mepolizumabe é um imunobiológico, um anticorpo monoclonal que neutraliza a interleucina-5 e reduz a quantidade de eosinófilos. A quimioterapia age sobre células em multiplicação. São mecanismos diferentes, e o mepolizumabe não é usado no tratamento de câncer.

Mepolizumabe e Nucala são a mesma coisa?

Sim. O mepolizumabe é o princípio ativo e o Nucala é o nome comercial com que ele é vendido no Brasil, registrado na Anvisa sob o número 1.0107.0335. Não há versão genérica nem similar do medicamento no país.

Quanto tempo o mepolizumabe leva para fazer efeito?

A bula registra que o mepolizumabe é destinado ao tratamento de longa duração e que a necessidade de continuidade deve ser reavaliada pelo menos uma vez por ano. Em pareceres técnicos apresentados ao Judiciário, médicos assistentes têm indicado que a resposta ao tratamento costuma se definir entre a 16ª e a 24ª semana de uso. A avaliação é do médico que acompanha o caso.

O plano de saúde pode negar mepolizumabe alegando uso off label?

Depende da indicação prescrita. Para asma eosinofílica grave não há uso off label: a indicação está em bula e na diretriz de utilização do rol da ANS, e a cobertura é obrigatória se os três critérios clínicos estiverem cumpridos. Para uma condição que não está em bula, a prescrição é uso fora da bula, e a cobertura é analisada pelos cinco critérios cumulativos da ADI 7.265. Uso fora da bula não é o mesmo que tratamento experimental.

O mepolizumabe é fornecido pelo SUS?

Sim, para asma eosinofílica grave refratária. O medicamento integra o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica desde 2021 para adultos e desde 2024 para pacientes de 6 a 17 anos, com dispensação pelo protocolo clínico da asma. Para as outras indicações ele não está incorporado.

Quanto tempo demora uma liminar para liberar medicamento?

Não há prazo legal. A tutela de urgência do art. 300 do Código de Processo Civil é analisada pelo juiz logo após a distribuição do processo, e em pedidos de medicamento a decisão costuma sair em dias. O prazo real depende do juízo competente e da instrução do pedido: quanto mais detalhado o relatório médico e a documentação da negativa, menor a chance de o juiz determinar diligências antes de decidir.

O plano pode exigir junta médica para autorizar o mepolizumabe?

Pode, quando há divergência técnica sobre a indicação clínica. O procedimento está na RN 424/2017 da ANS e prevê um terceiro médico desempatador, escolhido em comum acordo, entre nomes apresentados pela operadora. A junta médica serve para resolver divergência clínica, não para postergar indefinidamente a resposta ao pedido.

É possível pedir reembolso do que já foi pago do próprio bolso?

Sim. Quando o beneficiário custeia o medicamento por conta própria durante a negativa, o valor pago pode ser objeto de pedido de restituição, desde que comprovado por nota fiscal e acompanhado da documentação da negativa e da prescrição. O pedido de reembolso pode ser cumulado com o de obrigação de fornecer as doses seguintes.

O que a norma e a jurisprudência definem hoje

Três pontos resumem a situação do mepolizumabe (Nucala) na data de atualização desta página.

Na asma eosinofílica grave a cobertura pelo plano de saúde é obrigatória, porque o medicamento é nominado na diretriz de utilização do rol da ANS. A discussão não é sobre o rol, é sobre o cumprimento de três critérios clínicos que precisam estar documentados no relatório médico.

Nas outras indicações de bula e no uso fora da bula, a análise segue os cinco critérios cumulativos da ADI 7.265, fixados pelo STF em 18 de setembro de 2025, e a data da negativa define qual regime se aplica ao caso.

Pelo SUS, o medicamento está incorporado ao Componente Especializado da Assistência Farmacêutica para asma eosinofílica grave refratária, com dispensação pelo protocolo clínico. Fora dessa indicação, o fornecimento depende dos três requisitos do Tema 106 do STJ.

Escrito por:

Autor Elton Fernandes

Elton Fernandes, advogado especialista em Direito da Saúde, professor convidado de pós-graduação da USP, da USP de Ribeirão Preto, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, da Escola Paulista de Direito (EPD) e do Instituto Luiz Mário Moutinho, em Recife. É presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB de São Caetano do Sul e autor do livro "Manual de Direito da Saúde Suplementar: direito material e processual em ações contra planos de saúde".

Fique por dentro das atualizações!
Inscreva-se na nossa newsletter

Gostaria de receber nosso conteúdo?
Cadastra-se para receber.

Acompanhe o Dr. Elton Fernandes
especialista em ações contra planos de saúde, na imprensa:

Elton Fernandes na imprensa

Siga nossas redes sociais e saiba mais sobre Direito da Saúde:

  

VEJA
MAIS INFORMAÇÕES

PRECISA DE AJUDA?
ENTRE EM CONTATO CONOSCO

ELTON FERNANDES SOCIEDADE DE ADVOGADOS
22.692.544/0001-02

Seus dados estão protegidos e tratados com sigilo.