Receber a indicação de uso do atezolizumabe (Tecentriq®) pode trazer dúvidas sobre o acesso ao tratamento e o custo do medicamento, especialmente quando o plano de saúde recusa o custeio.
O atezolizumabe é um medicamento imunoterápico utilizado no tratamento de alguns tipos de câncer, como o carcinoma urotelial, o câncer de pulmão, o câncer de mama e o carcinoma hepatocelular.
O medicamento possui registro sanitário na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas isso não significa que todas as suas indicações tenham cobertura obrigatória pelos planos de saúde.
A cobertura do atezolizumabe deve ser analisada conforme a indicação prescrita, a forma de administração, as regras aplicáveis ao plano e a situação regulatória do tratamento.
Como o medicamento não está previsto no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), também é necessário examinar os critérios estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Neste artigo, entenda para que serve o atezolizumabe, quanto custa o medicamento, como funciona a análise de cobertura e quais medidas podem ser consideradas diante de uma negativa.
Continue a leitura para entender:
O atezolizumabe, comercializado como Tecentriq®, é um medicamento imunoterápico da classe dos anticorpos monoclonais. Ele atua sobre a proteína PD-L1, envolvida nos mecanismos pelos quais algumas células tumorais conseguem escapar da resposta imunológica.
Ao bloquear essa interação, o medicamento pode favorecer a ação do sistema imunológico contra o tumor. A resposta ao tratamento, porém, depende de fatores clínicos e das características da doença.
O atezolizumabe pode ser administrado por infusão intravenosa ou, conforme a apresentação e a indicação autorizadas, por via subcutânea. Também pode ser utilizado isoladamente ou em combinação com outros medicamentos.
A Anvisa aprovou o uso do Tecentriq® para diferentes situações oncológicas:
As indicações variam conforme o tipo e o estágio do tumor, os tratamentos anteriores, os marcadores tumorais e outras características clínicas.
>> Consulte a bula oficial do Tecentriq® para verificar as particularidades das indicações aprovadas.
O medicamento não é indicado indistintamente para todos os pacientes com câncer. Por isso, a análise de cobertura deve considerar a indicação específica e o esquema terapêutico prescrito.
O atezolizumabe é um medicamento de alto custo. O valor varia conforme a apresentação, a concentração, a via de administração, a tributação e o canal de comercialização.
Em 2026, os preços do Tecentriq® encontrados foram:
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Apresentação |
Referência |
Valor |
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1.200 mg/20 mL, intravenoso |
Preço de fábrica, ICMS 0%, lista CMED de 11/08/2026 |
R$ 28.397,37 |
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1.200 mg/20 mL, intravenoso |
Farmácia especializada, preço especial |
R$ 33.458,44 |
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1.200 mg/20 mL, intravenoso |
Farmácia especializada, preço normal |
R$ 39.257,70 |
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1.200 mg/20 mL, intravenoso |
Comparador de preços, valor inicial divulgado |
R$ 21.204,15 |
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840 mg/14 mL, intravenoso |
Preço de fábrica, ICMS 0%, lista CMED |
R$ 19.878,16 |
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840 mg/14 mL, intravenoso |
Comparador de preços |
R$ 21.476,05 |
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1.875 mg, subcutâneo |
Referência CMED informada |
R$ 28.397,37 |
Os valores não são diretamente equivalentes. O preço de fábrica indicado na lista da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) é uma referência regulatória, enquanto os preços de farmácia refletem condições comerciais específicas.
O Preço Máximo de Venda ao Governo (PMVG) é outra referência, aplicável às operações sujeitas às regras de aquisição governamental. Uma nota técnica do e-NatJus apresenta o valor de R$ 26.547,50 para a apresentação de 1.200 mg. Esse dado não representa necessariamente o valor vigente em todas as modalidades de aquisição.
Considerando, apenas para fins de estimativa, uma administração intravenosa de 1.200 mg a cada 21 dias, o tratamento pode envolver aproximadamente 17 frascos por ano.
Com o preço de fábrica de R$ 28.397,37 por frasco, o cálculo é:
Essa estimativa considera somente o medicamento. Não inclui despesas com administração, consultas, exames ou medicamentos associados. A quantidade efetivamente utilizada depende do esquema prescrito, da duração do tratamento e da evolução clínica.
O custo elevado ajuda a dimensionar o impacto financeiro de uma eventual recusa, mas é o único fator a considerar para saber se o plano de saúde tem obrigação de custear o tratamento.

O atezolizumabe (Tecentriq®) pode ter cobertura obrigatória pelo plano de saúde quando há recomendação médica fundamentada na ciência.
A análise exige distinguir três questões: o registro sanitário do medicamento, a previsão de cobertura no rol da ANS e os critérios jurídicos que podem ser aplicados a tratamentos não previstos na lista.
Embora o medicamento não tenha sido incorporado nominalmente ao rol da ANS, isso não encerra a análise da cobertura. A Lei nº 9.656/1998 estabelece regras específicas para a cobertura de tratamentos antineoplásicos, inclusive os administrados por via intravenosa, que devem ser consideradas na avaliação da negativa.
A Lei nº 14.454/2022, que alterou a Lei dos Planos de Saúde, também estabeleceu critérios para a cobertura de tratamentos não incluídos no rol da ANS. Entre os aspectos relevantes estão a comprovação da eficácia e da segurança da terapia com base em evidências científicas e a avaliação das alternativas terapêuticas disponíveis, conforme os requisitos legais aplicáveis.
No caso do atezolizumabe, a análise deve considerar a indicação clínica, o esquema terapêutico prescrito e as evidências científicas que sustentam o uso do medicamento. Quando a discussão envolve tratamento não previsto no rol, também é necessário observar os critérios definidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da ADI 7.265.
A ausência de previsão nominal no rol, portanto, não basta para determinar se a negativa de cobertura é legítima. A análise depende das características do tratamento prescrito e das regras legais e regulatórias aplicáveis ao caso.
>> Para entender como ocorre a cobertura de tratamentos não previstos, confira nosso guia explicativo sobre a Lei 14.454 e a cobertura de tratamentos fora do rol da ANS.
Em 18 de setembro de 2025, o STF concluiu o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.265 e estabeleceu parâmetros cumulativos para a análise da cobertura de tratamentos ou procedimentos não previstos no rol da ANS.
Segundo a decisão, devem ser examinados os seguintes requisitos:
Os requisitos devem ser considerados em conjunto. Além disso, a decisão do STF estabelece parâmetros para a análise judicial, incluindo a necessidade de verificar o requerimento prévio à operadora e, quando disponível, consultar o Núcleo de Apoio Técnico do Poder Judiciário (NATJUS) ou outras fontes de conhecimento técnico.
A decisão pode ser consultada no portal do STF, no processo da ADI 7.265.
No caso do atezolizumabe, é necessário considerar a indicação clínica e a forma de administração do medicamento. Por ser um antineoplásico administrado por via intravenosa, sua cobertura deve ser analisada à luz das regras específicas aplicáveis a essa categoria de tratamento, além dos critérios previstos na Lei nº 14.454/2022 para terapias não incluídas no rol da ANS.
O uso off-label ocorre quando um medicamento é prescrito em condições que não correspondem às indicações, à população, à dose ou a outras condições de uso aprovadas em bula.
Quando o atezolizumabe é prescrito fora da bula, a análise deve considerar:
Portanto, não é possível afirmar que todo uso off-label será coberto ou que toda negativa fundamentada nessa circunstância será legítima. A conclusão depende da indicação, das evidências disponíveis e das regras aplicáveis ao caso.
A recusa de cobertura do atezolizumabe deve ser analisada a partir do motivo apresentado pela operadora, da indicação médica e das regras aplicáveis à administração do medicamento.
O primeiro passo é verificar em que contexto o tratamento será realizado, como será administrado e qual é a indicação prescrita.
Por ser um antineoplásico intravenoso, a análise deve considerar as disposições da Lei nº 9.656/1998 relativas à cobertura de tratamentos oncológicos, incluindo os medicamentos e procedimentos realizados durante a internação hospitalar, conforme a segmentação contratada e as regras aplicáveis.
Também é necessário identificar o fundamento da negativa: ausência de previsão no rol da ANS, uso fora das indicações aprovadas em bula, cláusula contratual ou outro motivo. Cada hipótese exige uma análise própria, considerando as evidências científicas que respaldam o tratamento e as normas pertinentes.
A prescrição médica, o registro sanitário e as evidências científicas são elementos importantes, mas precisam ser avaliados em conjunto com as regras de cobertura aplicáveis. Da mesma forma, o custo elevado do medicamento não justifica, isoladamente, a obrigação de fornecimento.
Algumas providências ajudam a documentar a recusa e a organizar as informações necessárias para uma análise administrativa ou jurídica da negativa de cobertura do atezolizumabe.
Peça à operadora a justificativa formal para a recusa e guarde o número do protocolo de atendimento. O documento permite identificar o fundamento utilizado e verificar quais regras foram consideradas.
Organize a prescrição, o relatório do oncologista, os exames e os laudos relacionados ao diagnóstico. O relatório médico deve explicar, conforme o caso, o diagnóstico, o estágio da doença, a indicação do atezolizumabe, as razões clínicas para a escolha, a dose, a frequência e a duração prevista.

Verifique se a indicação corresponde à bula aprovada pela Anvisa, qual é a situação da cobertura na regulamentação da ANS e quais condições se aplicam ao contrato.
Com os documentos reunidos, é possível apresentar uma contestação pelos canais oficiais da operadora e guardar as respostas recebidas. Também pode ser considerada uma reclamação à ANS, conforme as regras e os procedimentos aplicáveis.
Se a negativa persistir, a análise por um advogado especialista em Direito da Saúde pode ajudar a identificar os fundamentos jurídicos pertinentes e avaliar eventuais medidas administrativas ou judiciais.
Nenhuma dessas providências garante a autorização do tratamento. O resultado depende das circunstâncias clínicas, regulatórias, contratuais e jurídicas de cada caso.
Não. A possibilidade de contestar uma recusa não significa que o custeio será necessariamente reconhecido.
A avaliação depende da indicação médica, da situação regulatória do tratamento, das evidências científicas, das alternativas disponíveis e das regras de cobertura aplicáveis.
A análise individual dos documentos permite identificar os argumentos pertinentes, mas não é possível garantir previamente o resultado de uma reclamação administrativa ou de uma ação judicial.

A cobertura do atezolizumabe (Tecentriq®) pelo plano de saúde deve ser avaliada conforme a indicação clínica, a forma de administração e as regras específicas aplicáveis aos tratamentos antineoplásicos.
O fato de o medicamento não estar previsto nominalmente no rol da ANS não determina, por si só, se a negativa de cobertura do plano de saúde é legítima.
A análise deve considerar a Lei nº 9.656/1998, as alterações introduzidas pela Lei nº 14.454/2022 e, quando a discussão envolver tratamento não previsto no rol, os critérios estabelecidos pelo STF no julgamento da ADI 7.265. Nos casos de uso off-label, também é necessário examinar a justificativa médica e as evidências científicas que sustentam a indicação.
Diante de uma recusa, solicite a justificativa formal da operadora e reúna a prescrição, o relatório médico e os documentos relacionados ao tratamento. A avaliação desses elementos ajuda a identificar os fundamentos aplicáveis e as medidas que podem ser consideradas, sem que seja possível garantir previamente o resultado.
A cobertura depende da indicação clínica, da forma de administração e das regras aplicáveis ao tratamento. Por ser um medicamento antineoplásico, é necessário considerar as disposições específicas da Lei nº 9.656/1998. Quando a discussão envolver tratamento não previsto no rol da ANS, também devem ser avaliados os critérios da Lei nº 14.454/2022 e do STF na ADI 7.265.
O atezolizumabe (Tecentriq®) é um medicamento imunoterápico que atua sobre a proteína PD-L1 e pode favorecer a resposta imunológica contra células tumorais. Possui indicações aprovadas pela Anvisa para alguns casos de câncer de pulmão, carcinoma urotelial, câncer de mama e carcinoma hepatocelular.
O atezolizumabe não está previsto nominalmente no rol da ANS. Isso não determina, isoladamente, a exclusão da cobertura. É necessário analisar a indicação prescrita, a forma de administração e as regras específicas aplicáveis ao tratamento.
A prescrição fora das indicações aprovadas em bula exige análise da justificativa clínica, das evidências científicas e das regras jurídicas e regulatórias aplicáveis. Olhar apenas para o uso off-label não permite concluir se a negativa de cobertura é legítima.
Na lista CMED de 11 de agosto de 2026, a apresentação intravenosa de 1.200 mg tinha preço de fábrica de referência de R$ 28.397,37, considerando ICMS de 0%. Os valores praticados por farmácias podem variar conforme as condições comerciais e tributárias.
Solicite a justificativa formal da negativa e guarde o protocolo de atendimento. Reúna a prescrição, o relatório médico, os exames e os documentos do plano. Com essas informações, é possível avaliar os fundamentos da recusa e as medidas administrativas ou jurídicas cabíveis.
A possibilidade de reembolso depende das circunstâncias do caso, das regras contratuais, da indicação médica e dos motivos que levaram o paciente a pagar pelo tratamento. A restituição não é automática e precisa ser avaliada conforme as condições aplicáveis.
O atezolizumabe não consta na lista de medicamentos do componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia do SUS, atualizada em setembro de 2026. A possibilidade de acesso depende das regras aplicáveis ao tratamento oncológico e da organização da assistência no serviço de saúde.
Quando o medicamento não é disponibilizado administrativamente, o paciente pode buscar a via judicial para solicitar o fornecimento. A concessão, porém, não é automática: depende da análise dos requisitos legais aplicáveis, da indicação médica, das evidências científicas e das circunstâncias clínicas do caso.
Não. A contestação permite questionar os fundamentos da recusa, mas não garante a autorização do tratamento. O resultado depende da indicação clínica, das evidências científicas, das regras de cobertura e das particularidades do caso.

Elton Fernandes, advogado especialista em Direito da Saúde, professor convidado de pós-graduação da USP, da USP de Ribeirão Preto, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, da Escola Paulista de Direito (EPD) e do Instituto Luiz Mário Moutinho, em Recife. É presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB de São Caetano do Sul e autor do livro "Manual de Direito da Saúde Suplementar: direito material e processual em ações contra planos de saúde".
ELTON FERNANDES SOCIEDADE DE ADVOGADOS
22.692.544/0001-02